Desde que o Ozempic e, mais tarde, o Wegovy e o Mounjaro passaram a fazer parte do repertório do brasileiro que quer emagrecer, o debate ficou concentrado em dois eixos: eficácia clínica e efeitos colaterais. Os números explicaram a atenção — a Novo Nordisk, fabricante da semaglutida, ultrapassou o valor de mercado combinado de várias potências industriais europeias em 2023, e a Eli Lilly, dona da tirzepatida, foi obrigada a ampliar plantas de produção nos Estados Unidos para tentar acompanhar a demanda global. Farmácias esgotaram estoques, planos de saúde revisaram políticas de cobertura, e o termo “Ozempic face” ganhou verbete próprio em inglês e português.
Três anos depois do início dessa curva, uma segunda camada de efeitos começa a se desenhar — dessa vez fora das farmácias e dentro dos consultórios de dermatologia, medicina esportiva, nutrologia e, agora, cirurgia plástica. É a economia consequente do emagrecimento medicamentoso: serviços que surgem para tratar o que os medicamentos deixaram para trás.
O primeiro capítulo: os medicamentos
A classe farmacológica é conhecida como análogos de GLP-1 (semaglutida, presente no Ozempic e no Wegovy) e agonistas duplos de GLP-1/GIP (tirzepatida, do Mounjaro e do Zepbound). Ambas atuam sobre hormônios intestinais que regulam saciedade, esvaziamento gástrico e resposta insulínica. O resultado clínico, em estudos como o STEP e o SURMOUNT, mostrou perdas médias de 15% a 22% do peso corporal em doze meses — patamar antes só alcançado por cirurgia bariátrica.
O impacto foi social antes de ser médico. O uso saltou de nicho para mainstream em menos de três anos, e a farmacoterapia da obesidade migrou do território do especialista para o consultório do clínico geral, do endocrinologista, e — em não raros casos — do médico do trabalho corporativo. No Brasil, o consumo aumentou de forma tão acelerada que a Anvisa, o Conselho Federal de Medicina e o Conselho Federal de Farmácia foram obrigados a publicar orientações específicas para regular a prescrição.
O segundo capítulo: o que aparece no espelho depois
Perder peso rapidamente cria um efeito colateral que os folhetos dos medicamentos não descrevem em destaque: a pele que sobra. Emagrecimentos convencionais — dieta, mudança de rotina, exercício sustentado — costumam ocorrer na faixa de 0,5 a 1,5 quilo por semana, ritmo que a elastina e o colágeno cutâneo conseguem, dentro do razoável, acompanhar. Sob GLP-1, e ainda mais sob tirzepatida, o ritmo médio observado é de 2 a 4 quilos por mês nos primeiros seis meses. A retração cutânea, biologicamente lenta, não acompanha.
O resultado se manifesta em geral entre o oitavo e o décimo segundo mês de uso: o paciente atinge o peso desejado, retoma a rotina, olha para o próprio corpo — e encontra dobras, pele frouxa em regiões que antes não incomodavam, contorno que não corresponde ao esforço percebido. Nos consultórios de cirurgia plástica masculina em São Paulo, o quadro clínico começou a se repetir com frequência crescente ao longo de 2025 e 2026.
O novo perfil de paciente
Ao contrário do paciente pós-bariátrica tradicional, que costuma chegar aos 50 anos ou depois, com histórico longo de obesidade e perdas superiores a 40 quilos, o paciente pós-GLP-1 tem entre 35 e 55 anos, perdeu de 15 a 30 quilos em um cronograma acelerado, manteve a rotina de treino durante o processo e apresenta flacidez cutânea concentrada no abdômen, nos flancos e no dorso. É o público que hoje concentra as buscas por procedimentos como a abdominoplastia masculina — indicada quando o excesso de pele está restrito à região abdominal e à parede muscular — e a torsoplastia, abordagem circunferencial que trata a flacidez no perímetro completo do tronco em casos mais amplos.
“É um perfil que não existia com essa densidade cinco anos atrás”, observa o cirurgião plástico Dr. Rafael Paccanaro, membro especialista da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e referência em cirurgia plástica masculina em São Paulo. “São homens jovens, ativos, que já sabem o que a academia entrega e o que ela não entrega. Não estão procurando transformação — estão procurando resolver uma consequência específica do emagrecimento que fizeram com auxílio farmacológico.”
Não é só estética: é reajuste de identidade
A leitura psicológica do quadro tem sido feita por médicos e psicólogos com atenção. Perder 25 quilos em um ano é, para muitos pacientes, a primeira vez que se veem no corpo desejado desde a juventude. Encontrar, no lugar do resultado imaginado, uma pele que não acompanha o novo contorno costuma gerar frustração desproporcional — como se o esforço tivesse ficado pela metade. Em algumas séries clínicas, esse é o motivo mais citado pelo paciente na primeira consulta cirúrgica: “não foi para isso que eu emagreci”.
A resposta profissional a esse cenário tem sido a construção de protocolos específicos, distintos dos aplicados ao paciente pós-bariátrica clássico. Envolvem preparação nutricional pré-operatória (é comum encontrar déficit proteico e de vitaminas em quem usou GLP-1 por muitos meses), avaliação da estabilidade do peso — cirurgia só é indicada após três a seis meses de peso estável — e orientação sobre suspensão temporária do medicamento antes da anestesia, dada a peristalse gástrica retardada que a classe induz.
O que o mercado sinaliza
Do ponto de vista econômico, o fenômeno tem estrutura de “categoria em formação”. A cadeia que se desenha a partir do emagrecimento medicamentoso engloba nutrologia, dermatologia (para tratar a “Ozempic face”), medicina esportiva de repotencialização muscular, terapia comportamental para prevenir efeito rebote — e, no fim, cirurgia plástica de contorno corporal. Consultórios de cirurgia plástica masculina no eixo Rio-São Paulo relatam aumento consistente em avaliações de abdominoplastia e torsoplastia associadas a histórico de uso prolongado de GLP-1 desde meados de 2025.
A tendência tem paralelo internacional. Nos Estados Unidos, a American Society of Plastic Surgeons registrou, em seus últimos relatórios, aumento superior a 30% nas consultas de contorno corporal citando “medication-assisted weight loss” como fator determinante. No Reino Unido, a British Association of Aesthetic Plastic Surgeons publicou nota técnica orientando associados sobre o novo perfil de paciente.
Uma categoria que se firma
Não é passageiro. Os análogos de GLP-1 e os agonistas duplos entraram no arsenal terapêutico da obesidade e, salvo revoluções farmacológicas imprevistas, permanecerão. Cada nova coorte de pacientes que atinge o peso-alvo com essa classe reproduz, meses depois, o mesmo cenário: peso estabilizado, forma reencontrada, flacidez a resolver. A cirurgia plástica masculina, historicamente organizada em torno de rejuvenescimento facial e definição muscular, incorpora um novo capítulo — o do contorno corporal do paciente que emagreceu rapidamente e cedo demais para que a pele conseguisse acompanhar.
É a segunda onda do Ozempic. E, ao contrário da primeira, não se mede em receitas nem em ações na bolsa. Mede-se em consultórios cheios, em pacientes que esperam três, quatro, cinco meses por uma agenda de avaliação, e em uma nova especialização silenciosa dentro da cirurgia plástica brasileira.

